Em meio a tantos questionamentos, uma pergunta escancara a relação esquecida entre os dois países-irmãos

A NBA caminha para fazer um retorno bastante controverso e antecipado, a fim de acabar logo com a temporada 19-20. Aparentemente, para o comissário Adam Silver e alguns GMs, é difícil esperar a pandemia dar uma trégua ou passar antes de sequer pensar em voltar aos trabalhos. Nesse momento, o que parece predominar não é a liderança dos Estados Unidos em casos e mortes por Covid-19, isso é o de menos. O importante é não ter asterisco no final do período, como aconteceu outras vezes em que a liga teve de ter seus jogos suspensos.

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Pensando em agir como salvadora da pátria, a NBA se propôs a retornar com um formato maluco tanto para o fim da temporada regular quanto para os playoffs. A partir de 31 de julho, 22 equipes jogando oito partidas, sendo as 16 classificadas normalmente e 6 convidadas. Além disso, há ainda a péssima ideia de levar os jogos para Orlando e ter aval da Disney para isso, um vez que a cidade registra quase 60 mil pessoas infectadas. Como olhar para essas propostas e conseguir concordar se não pelo fanatismo por lucro? Ou, pensando nos amantes do esporte que estão sentindo falta de um jogo, como olhar para essas propostas e achar que isso é viável tanto em relação à pandemia e manifestações quanto em relação ao modelo para os times?

Pensando nisso, já problematizando bastante essa situação, levanto mais questões ainda. Além de ignorar o que tem acontecido, a NBA parece ignorar também o Canadá. O país do atual campeão da liga, Toronto Raptors, está seguindo as restrições de quarentena e de viagens, uma vez que a fronteira com os Estados Unidos está fechada. É verdade que, atualmente, essa medida se estende até o dia 21 de junho, mas o que deve ser observado é que a organização tem negligenciado seu time canadense. E, mais, tem negligenciado seus próprios filhos.

NBA NO CANADÁ

Recentemente surgiu uma discussão se não seria mais viável realizar as partidas no Canadá, levando em conta o número de confirmados com Covid-19 e de mortes, considerado baixo. Além disso, há estrutura suficiente para que haja a realização dos jogos sem problemas logísticos. No entanto, como já dito, optaram por permanecer e jogar em Orlando. Essa situação me fez levantar uma pauta já perceptível em outros momentos: qual a real intenção da NBA com sua expansão para o Canadá, sendo que praticamente finge que não existe? Qual a real intenção da NBA com o retorno em 31 de julho?

Para tentar entender essas relações, uma breve pesquisa e um pouco de percepção foram suficientes para levantar hipóteses, que eu mal preciso citar. É interessante pensar que tudo se iniciou a partir do Canadá, e foi apropriado. O basquete foi inventado por um canadense. Ponto. James Naismith é o responsável por pegar um cesto de pegar pêssegos e ficar arremessando dentro dele. Educador e treinador de esportes, certo dia em 1891 foi perguntado sobre um esporte de salão para manter seus alunos em forma durante o inverno. Foi, então, que nasceu o basquete. Obviamente não era o basquete que conhecemos hoje, já que a cesta por muito tempo teve fundo.

Quando a NBA foi criada, Naismith já havia falecido. No entanto, sua ideia, seu esporte e seu legado estavam muito vivos. De forma amadora, o esporte já era bem praticado desde meados de 1930. O basquete profissional, porém, teve o primeiro passo oficial dado pelo confronto entre Toronto Huskies e New York Kickbockers. O jogo inaugurou a Basketball Association of America no dia 1º de novembro de 1946, que viria ser a NBA três anos mais tarde.

ATLETAS CANADENSES

O primeiro atleta canadense que deu certo na NBA foi Ernie Vandeweghe, draftado pelo New York Knicks em 1949. Ele jogou 224 jogos e teve médias de 9,5 pontos e 4,6 rebotes por jogo antes de se aposentar em 1954 e ir para a faculdade. Lá, ele se formou em medicina e se tornou conhecido por sua carreira médica. Apesar disso, seus quatro filhos seguiram a paixão por esportes, representando na natação, vôlei de praia, polo e basquete. Atualmente, a liga possui muitos atletas canadenses e tem Steve Nash, 2x MVP, como um dos mais ilustres da história.

VANCOUVER GRIZZLIES

É impossível falar de NBA no Canadá sem falar do Vancouver Grizzlies. Como eu explico neste artigo aqui, a equipe foi fundada em 1995 em Vancouver, e permaneceu no país até 2001. Em meio à críticas ao basquete jogado, engajamento com os canadenses (embora tivesse grande fã base) e, óbvio, a questões monetárias, o time se mudou para o Tennessee. Isso tudo claramente frustrou os planos da liga que acreditava que teria mais apreço expandindo suas fronteiras, tentando chamar torcedores de forma inversa ao que era a National Hockey League, criada no Canadá e expandida para os Estados Unidos.

TORONTO RAPTORS

Ao contrário dos Grizzlies, os Raptors tiveram vida útil superior no Canadá. A equipe foi criada em 1993, mas só entrou na liga em 1995 quando um empresário canadense comprou “o passe” de 125 milhões de dólares para a NBA. E, assim como seu compatriota, fez temporadas bem ruins antes de chegar uma das figuras mais emblemáticas do basquete: Vince Carter. Draftado em 1998, o ala-armador levou o time à primeira rodada dos playoffs na temporada 1999-2000 ao lado de figuras como Tracy McGrady e Dell Curry. Na seguinte, foram até as semi-finais da liga. Após isso, a equipe jogou o mata-mata apenas em 2006, emplacando mais tarde outra fase ruim. Em 2013, então, a equipe passou por uma reformulação que trouxe DeMar DeRozan, Kyle Lowry e Jonas Valanciunas.

Tudo isso, entre altos e baixos tanto de jogadores de forma individual quanto da própria equipe, o Toronto Raptors fez história. Após vencerem o Milwaukee Bucks nas finais de Conferência de 2018-19, o time se tornou o primeiro fora dos EUA a disputar as finais da NBA. E, alguns jogos mais tarde, faria mais: o primeiro time fora dos EUA a conquistar a liga.

O QUE IMPEDE A NBA DE SE INSTALAR NO CANADÁ?

Se tentarmos expor o que difere o time canadense dos times americanos, podemos falar em torcida, jogadores, equipe no geral e valor de mercado. Após a mudança dos Grizzlies, os Raptors tiveram um aumento grandioso em relação ao número de torcedores no ginásio. Em 2005, por exemplo, houve uma média de 17.056 pessoas nos jogos em casa e, em 2015-2016, foi a quarta maior média da NBA com 19.825. Além disso, a audiência de TV também cresceu, indo de 108.000 para 246.000. E, anos mais tarde, na contagem de 2019, a equipe canadense permanece na quarta posição com 19,824.

Falando sobre elenco, o Raptors é o atual campeão da NBA e mostrou que, mesmo sem Kawhi Leonard, consegue manter o alto nível. Antes da parada por conta pandemia de Coronavírus, os canadenses ocupavam a segunda posição na Conferência Leste com 46 vitórias e 18 derrotas, atrás apenas do Milwaukee Bucks. Kyle Lowry, Marc Gasol, Serge Ibaka, Paskal Siakam, Fred VanVleet e outros mostraram que podem ser competitivos jogando coletivamente.

Se o foco é dinheiro, preço e lucro, é importante dizer que o Toronto Raptors tem valor estimado de 2.1 bilhões de dólares, segundo a Forbes. Esse número faz a equipe canadense ser a 10º colocada na lista das equipes mais valiosas da NBA. O Memphis Grizzlies, ex-compatriota e que rumou aos EUA, aparece como a equipe menos valiosa custando cerca de 1.3 bilhão de dólares. Seria esse o momento de aderir ao movimento #BackToVancouver e voltar para o Canadá, Grizzlies? Talvez, mas isso é papo para outro texto. Com isso tudo mensurado, enfim, é evidente que houve um investimento e crescimento do time estrangeiro, tornando-o superior a vários outros colegas americanos.

A NBA QUER EXPANDIR PRO MÉXICO

Chegando a conclusão desse meu desabafo contra a NBA, eu termino com a busca por expansão em outros polos. Mesmo com evidências de que o bem estruturado Raptors elevou os números de amantes de basquete fora dos Estados Unidos, a liga segue querendo caminhar por estradas adversas. O México, então, aparece como um dos principais alvo para a criação de um novo time. Isso porque a capital do país é a cidade mais populosa da América do Norte e isso implicaria um aumento na popularidade do basquete. Além disso, a liga quer evitar greves criando outros dois times em solo americano.

A pergunta que fica, então, é: Por que não investir no Canadá? O Canadá tem um dos principais times atualmente, tem o maior campeão da NHL, o Montreal Canadiens, tem público, tem dinheiro, tem audiência. O que falta para conquistar a atenção da NBA? O que falta para ter a consolidação da NBA no Canadá? No meio dessa pandemia, seria o local ideal para, com ressalvas (é necessário pensar em deslocamento), retornar com o basquete e finalizar a temporada 19-20. E, mais: sem correr riscos absurdos de contaminação por Covid. Em primeiro lugar, a liga deveria pensar em como esse jogo é feito de pessoas e que há interesses maiores que a busca incansável por aumentar o patrimônio. Essa irresponsabilidade vai destruir quantos mais sem necessidade?

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