O esporte como local para manifestações de justiça 

Há quem ache que esporte e política não se misturam, equívoco porque a política está em tudo que fazemos. A definição de política tem total relação do indivíduo com o meio que o cerca.

O esporte é um fenômeno sociocultural complexo, de grande relevância e inserido globalmente nas conversas. Um elemento de nossa cultura que pode ser compreendido por diversos olhares, disciplinas e áreas de atuação. 

O esporte é ciência, é tecnologia, é história, é sociologia, é paixão, é negócio, é lazer, é saúde, e é política! Não é simplesmente só um espaço para entretenimento e business, ou seja, esporte e política se misturam sim.

Na semana passada, a WNBA apresentou detalhes da plataforma The Justice Movement e a criação do conselho de justiça. Também anunciaram que jogadoras irão vestir uniformes especiais para buscar justiça para mulheres, como Sandra Bland, Breonna Taylor e Vanessa Guillen. Além de camisas de aquecimento que dizem Black Lives Matter na frente e Say Her Name na parte de trás.

Na NBA não é diferente. A liga e a Associação Nacional de Jogadores de Basquete (NBPA) chegaram a um consenso sobre uma lista de frases cobrando justiça social que os jogadores poderão usar nas suas camisas durante os quatro primeiros dias do retorno.

A intenção de ambas ligas e atletas é de que os protestos dentro das quadras evitem que a volta do basquete no país distraía os espectadores de problemas sociais importantes. 

Mas, os esforços de justiça social ganharam demonstrações de indignação por parte dos senadores Josh Hawley e Kelly Loeffler. Na intenção de reforçarem suas crenças conservadoras, os senadores republicanos seguem o manual de orientações de Donald Trump. Lembra-se de 2016/2017?! O empenho de Trump para demonizar os atletas que defendem a igualdade e a justiça. Bom, dessa vez, Hawley e Loeffler não se saem melhor.

Na foto, a senadora Kelly Loeffler, em um evento político, não é possível distinguir onde o evento acontece. Esporte e política se misturam e ponto - Área Restritiva
Ao passo que existem pessoas no esporte que são ativas politicamente, existem pessoas no esporte que não concordam sobre o posicionamento político de atletas, uma delas é a senadora Kelly Loeffler.
Foto: Drew Angerer/Getty Images

A senadora Kelly Loeffler, da Georgia, co-proprietária do Atlanta Dream da WNBA, diz que a política não pertence ao esporte, dobrou sua posição contra o movimento Black Lives Matter e Say Her Name. Loeffler, co-proprietária do Dream desde 2011, quer que a WNBA coloque uma bandeira americana nas camisas das jogadoras, em vez de incorporar qualquer coisa relacionada ao Black Lives Matter no jogo.

Alegando que o Black Lives Matter “apela ao desembolso da polícia, abriga visões anti-semitas e promove ativamente a violência em todo o país”. Loeffler criticou “os esforços para inserir uma plataforma política na liga“. Loeffler está buscando a reeleição em novembro.

Josh Hawley, senador no Missouri, pede que a NBA coloque mais política no esporte. Enviou um e-mail ao comissário da NBA, Adam Silver, se opondo à lista aprovada da NBA de mensagens de justiça social que os jogadores podem usar em suas camisas. E enquadrando-o como algo antipatriótico.

O senador Hawley escreve que, como a NBA está agora sancionando mensagens políticas, eles devem defender os valores americanos e deixar clara a posição dos abusos dos direitos humanos na China. Lembrando as polêmicas de outubro de 2019, envolvendo o GM do Houston Rockets, Daryl Morey, e seu apoio a Hong Kong em detrimento da China, parceira de longa data da liga e que acabou cortando relações.

A WNBA e a NBA são de longe, a mais progressivas das ligas esportivas norte-americanas. Ambas são compostas de jogadores predominantemente negros e têm uma longa e consistente história de manifestar contra o racismo sistêmico e injustiças sociais que está enraizado nos EUA.

Pensar então, que qualquer uma das ligas fiquem em silêncio ou não se manifestarem é um equívoco. “Com ou sem você, continuaremos esse movimento porque é maior do que eu ou você “, escreveu Renne Montgomery do Atlanta Dream à senadora.

Por algum tempo, os atletas foram instruídos a calar a boca e apenas jogar, pois suas opiniões fora das quadras são irrelevantes. Para Hawley e Loeffler, eles realmente deveriam calar a boca e seguir suas ideias conservadoras. 

Mas, ambos não possuem terreno moral. De acordo com uma pesquisa do HuffPost/YouGov, quase dois terços dos norte-americanos apoiam o movimento Black Lives Matter e protestos de atletas.

Os protestos generalizados contra o racismo provocaram uma mudança profunda na opinião pública no país, que pode se refletir negativamente sobre Trump e seu plantel nas eleições, em novembro. 

Os movimentos da WNBA e NBA refletem à sede de justiça de seus jogadores, que lutam pelo direito da população preta, de viver e sair na rua sem ser alvejado. Não reconhecer isso ou pior, desrespeitá-lo, é anti-humano.

Os atletas têm o direito de se manifestar em qualquer regime democrático, essa é uma premissa básica. Mesmo quando o conteúdo relatado é diferente de nossa visão de mundo. Isso é democracia.

Na foto, Renee Montgomery, atleta do Atlanta Dream e campeã da WNBA, na foto ela está em uma partida pela equipe, o fundo está desfocado, com o foco somente na jogadora que está com as mãos nos joelhos olhando para alguma coisa dentro de quadra.  Esporte e política se misturam e ponto - Área Restritiva
A jogadora do Atlanta Dream, Renee Montgomery, tem um posicionamento diferente da senadora. Foto: Divulgação/WNBAE

Sei que você tem uma eleição difícil em novembro e deve apelar à sua base. Entendi, sim“, disse Renee, na sexta-feira (10) em uma carta aberta a Kelly Loeffler. “Mas dizer que o esporte não deve se misturar à política nega o nosso passado.

Montgomery relembra que Bill Russell chegou a boicotar uma partida da NBA em 1961, depois que um restaurante em Lexington, cidade no estado de Kentucky, se negou a servi-lo por causa de sua cor da pele. Ela relembra a Loeffler também, que Jackie Robinson não era apenas um jogador de beisebol e Muhammad Ali era mais que um boxeador.

Dizer que esporte e política não se misturam, simplesmente  consideram a política apenas como o ato de a cada quatro anos, apertar botõezinhos na urna.

Já não bastaram Muhammad Ali, Maya Moore, Colin Kaepernick, Doutor Sócrates e LeBron James? A relação entre esportes e política é antiga, cobrando posicionamentos de toda a sociedade.

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