Além das Quadras: Jason Collins quebra barreiras

Após 64 anos de existência da NBA, o pivô Jason Collins quebrou o maior tabu da liga ao não negar quem de fato é 

Primeiramente, devo dizer que este é um Além das Quadras diferente. Ao contrário das duas primeiras matérias, nas quais abordei o basquete causando impacto na cultura, o tema deste mês vai na contramão. Falaremos sobre um jogador que impactou o basquete e, consequentemente, toda a sociedade norte-americana. Em outras palavras, o assunto da nossa coluna será Jason Collins.

Tudo bem, autor, mas quem é Jason Collins?

Pois bem, esse costuma ser o momento biográfico do texto. Resumidamente, Jason Collins nasceu em Northridge, na ensolarada Califórnia e fez faculdade jogando pela Stanford. Bem como muitos atletas, Collins detém recordes universitários, sendo o primeiro em porcentagem de arremessos (0,608), além de ser o terceiro jogador com mais tocos, com 89. 

Seu sonho de entrar para a NBA tornou-se realidade no Draft de 2001, quando foi a décima oitava escolha, selecionado pelo Houston Rockets e realocado ao New Jersey Nets. Em seu ano de calouro vindo do banco, Collins chegou às Finais da NBA. Porém, o Nets de Jason Kidd foi varrido pelo Los Angeles Lakers de Shaquille O’Neal e Kobe Bryant

Na temporada seguinte, Jason Collins conquistou a titularidade e, novamente, disputou as Finais. Porém, o adversário era o San Antonio Spurs de Tim Duncan, Tony Parker e Manu Ginóbili. Dessa forma, o Nets amargou mais um vice-campeonato, perdendo a série por 4-2. Collins, contudo, seguiu na franquia nova-iorquina até a temporada 2007-08. 

Entre 2008 e 2014, o pivô fez uma excursão pela liga, atuando por Memphis Grizzlies, Minnesota Timberwolves, Atlanta Hawks, Boston Celtics, Washington Wizards e retornando ao Nets — desta vez em Brooklyn. Terminou a carreira com médias gerais de 3.6 pontos e 3.7 rebotes — 6,4 pontos e 6,1 rebotes, em sua melhor temporada (2004-05). 

No entanto, se engana quem pensa que a carreira de Jason Collins se limita à dois títulos de Conferência e modestas estatísticas de quadra… 

A revelação que mudou o esporte norte-americano

No ano de 2013, aos 35 anos, Jason Collins mudou o esporte. Não foi uma cesta emblemática ou um lance do título, mas algo muito maior: Collins decidiu, abertamente, não negar quem ele é. Entrevistado pela Sports Illustrated, o atleta revelou ser homossexual, quebrando um dos maiores tabus do esporte. Nenhum outro atleta, das quatro grandes ligas americanas (NFL, NBA, MLB e NHL) assumiu essa opção sexual enquanto estiveram em atividade. 

“Não tinha a intenção de ser o primeiro atleta assumidamente gay a jogar em uma grande liga americana. Mas agora que sou, estou feliz em começar essa conversa. Não desejava ser a criança do colégio a levantar a mão e dizer: ‘Eu sou diferente’. Mas ninguém mais fez, então estou levantando a mão” 

disse Jason Collins para a revista. 

Após a declaração, Collins novamente fez história. Enfrentando o Lakers — algoz de 2002 — e vestindo a camisa do Nets, o pivô veterano ficou em quadra por 10 minutos e 28 segundos. Apesar de aparentar ser um evento corriqueiro, esta partida foi um marco. Jason Collins foi o primeiro jogador assumidamente gay a disputar uma partida oficial da NBA. 

A despedida das quadras de Collins

Fora das quadras recebeu grande apoio da NBA, da mídia, da Nike e os cumprimentos do prefeito de Nova York, Bill de Blasio e do presidente dos Estados Unidos, Barrack Obama. Além disso, a revista Time elegeu Jason Collins como uma das “100 Pessoas Mais Influentes No Mundo”

Com o fim da temporada 2013-14, depois de jogar 22 jogos, Collins se aposentou do basquete. Em sua despedida das quadras, o ex-jogador fez outra importante declaração: “Há gays em todos os esportes profissionais e eu conheço alguns deles.” 

Collins ainda foi além afirmando: “Quando chegarmos ao ponto em que um atleta homossexual não precise viver com medo da reação dos companheiros de time e esconder-se atrás de uma imagem falsa, então sair do ‘armário’ não será grande coisa. Mas nós não chegamos lá ainda.” 

Por que nunca chegamos lá? 

A NBA, assim como outras ligas esportivas, é um grande reflexo de nossa sociedade. Sendo assim, não é difícil entender o porquê de nenhum atleta, até 2013, ter assumido uma opção sexual contrária à heterossexualidade. Um grande exemplo do preconceito que um atleta homossexual sofreria está em Magic Johnson que, em 1991, testou positivo para o HIV

Embora fosse pentacampeão e três vezes MVP da liga, quando Magic revelou ser soropositivo, a mídia começou o desserviço de especular se o jogador era homo ou bissexual — pelo achismo totalmente errôneo da AIDS ser a “doença dos gays”. À época, Magic acusou Isiah Thomas, do Detroit Pistons, de espalhar boatos falsos sobre sua sexualidade — ocasionando a exclusão de Isiah do Dream Team. 

Magic deu a volta por cima atuando no All-Star Game de 1991 e nos Jogos Olímpicos de 1992, mas teve que lutar não apenas com o vírus do HIV. A estrela também teve que lutar contra um vírus tão nocivo quanto — o do preconceito. Anos mais tarde, em 1996, Dennis Rodman afirmou que 10-20% dos atletas profissionais são gays e que o “mundo não está pronto para acolhê-los.” 

E de fato, quando paramos para olhar a quantidade gigantesca de jogadores que passaram pela NBA, é impossível pensar que apenas Jason Collins e John Amaechi — que revelou ser gay pós-aposentadoria — foram os únicos jogadores gays na liga. Pelo contrário, existiram — e ainda existem — muitos outros que optaram por não assumir. 

Em contrapartida, não podemos julgar esses atletas pois não era — e ainda não é — uma decisão fácil. Os Estados Unidos eram — e continuam sendo — um país conservador. Sendo assim, um atleta que se assumisse gay nas décadas passadas sofreria repressões da imprensa, agressões físicas e verbais da torcida e perdas de contrato das grandes marcas. 

A coragem de Jason Collins deve ser valorizada 

Definitivamente, Jason Collins é um dos atletas mais corajosos da história do esporte — por assumir quem ele verdadeiramente é. Sua decisão foi um marco não só para o esporte, como também para toda uma sociedade que ainda enxerga o esporte como um ambiente majoritariamente machista. 

Até mesmo o número #98 de sua camisa tinha um importante significado. Tratava-se de uma homenagem a Matthew Shepard, assassinado em 1998, vítima de homofobia.

Todavia, o processo para que mais “Jasons” apareçam, sobretudo, ainda é lento. Entretanto, o primeiro passo já foi dado para que um dia o mundo, enfim, chegue lá.

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