Atletas da WNBA tem papel fundamental no combate ao racismo e a violência policial contra a mulher negra

Embora a maioria dos negros mortos pela polícia nos Estados Unidos sejam homens, mulheres negras também são vulneráveis ​​à violência sancionada pelo Estado. A campanha Say Her Name trabalha para trazer uma maior conscientização sobre esse problema que assola os EUA.

Kimberlé Crenshaw – advogada, defensora dos direitos civis e importante estudiosa da teoria crítica da raça, usou o termo “interseccionalidade” para descrever como identidades marginalizadas se relacionam com sistemas de opressão. O termo ajudou a descrever as maneiras pelas quais as mulheres negras, em particular, se tornam socialmente vulneráveis ​​por causa de suas múltiplas identidades raciais, de gênero e sexuais.

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Quando realizava palestras em todo o país, Crenshaw percebeu que muitas pessoas simplesmente não conseguiam nomear nome de mulheres vítimas da brutalidade policial da mesma maneira como conhecem: George Floyd, Eric Garner, Tamir Rice, Mike Brown ou Freddie Gray. Embora possa ser difícil nomear até cinco mulheres negras mortas pela polícia, isso não significa que não esteja acontecendo com a mesma urgência que os homens negros. 

Segundo a Prison Policy Initiative, nos EUA mulheres negras têm 17% mais probabilidade do que mulheres brancas de serem paradas pela polícia e 1,4 vezes mais probabilidade de serem mortas. Mas, suas mortes são menos provável de incitar tanta indignação quanto as vítimas do sexo masculino, e seus nomes e histórias tendem a ser esquecidos mais rapidamente.

Por isso, em dezembro de 2014, em parceria com o Fórum de Política Afro-Americano (AAPF), Crenshaw decidiu lançar a campanha Say Her Name, que traz a conscientização para os nomes e narrativas muitas vezes invisíveis de mulheres e meninas negras que foram vítimas da violência policial e buscam dar apoio às suas famílias.

#SayHerName: Campanha de conscientização sobre violência policial e apoio a vitimas

Mulheres e meninas negras de 7 a 93 anos foram mortas pela polícia. Saber seus nomes é uma condição necessária, mas não suficiente para levantar suas histórias, o que, por sua vez, fornece uma visão muito mais clara das circunstâncias abrangentes que tornam os corpos das mulheres negras desproporcionalmente sujeitos à violência. Para levantar suas histórias e iluminar a violência policial contra essas mulheres, a campanha demonstra a importância  de sabermos quem elas eram, como viviam e por que sofreram nas mãos da polícia.

Em 20 de maio de 2015, na Union Square em Nova York, a AAPF hospedou a #SayHerName: uma vigília em memória das mulheres negras mortas pela polícia. Pela primeira vez, os familiares se reuniram para uma vigília destinada a chamar a atenção para as histórias de seus entes queridos.

Nos últimos cinco anos, a campanha se expandiu e aumentou seu foco na defesa. Desde 2015, a AAPF organiza o Say Her Name Mothers Weekend, evento anual na cidade de Nova York, reunindo um grupo de mães que perderam suas filhas devido à violência policial. 

Justiça? Quem disparou usava farda (mais uma vez) 

Há mais de seis meses, além da WNBA, alguns dos maiores nomes do mundo dos esportes e entretenimento como: Lebron James, Stephen Curry, Donovan Mitchell, Naomi Osaka, Beyoncé e Oprah Winfrey, pediram justiça a Breonna Taylor.

Em Louisville, uma cidade aconchegante e charmosa que é o local de nascimento do talvez o atleta mais querido de todos os tempos, Muhammad Ali, tornou-se o epicentro da tensão racial que está se formando no EUA. 

No dia 23 de setembro, um júri de Kentucky decidiu indiciar apenas Brett Hankison por três acusações de “conduta arbitrária” de primeiro grau, por atirar às cegas no apartamento e colocar os vizinhos em perigo. 

Apesar disso, Brett Hankison foi solto após o pagamento da fiança, fixada em US$ 15 mil, de acordo com a acusação. Os outros dois agentes que também dispararam no local não foram indiciados, pois atiraram em legítima defesa, pois o namorado de Taylor disparou primeiro.

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O caso levou à aprovação da “Lei Breonna”, em junho, banindo a invasão de casas em operações de buscas, e à admissão de uma chefe de polícia interina em Louisville. O governo concordou, em setembro, em pagar US$ 12 milhões à família e ordenar algumas reformas na polícia.

As relações entre a polícia de Louisville e a comunidade afro-americana estão tensas há muito tempo. Foi a polícia local que aplicou as velhas leis de segregação de Jim Crow sobre a comunidade negra.

E em 2019, o Departamento de Polícia Metropolitana de Louisville enfrentou vários processos alegando que a polícia estava usando as paradas de trânsito como pretexto para parar motoristas afro-americanos e conduzir buscas e apreensões de cunho pessoal.

A MVP da temporada regular, A’ja Wilson, do Las Vegas Aces, repudiou o julgamento quando questionada sobre a decisão do grande júri de não acusar nenhum dos policiais pela morte de Breonna. Chamando isso de um “Tapa na cara. Não consigo nem expressar como é difícil e como estou enojada. Mas isso não parou a luta; isso nunca vai parar a minha luta. Isso está me fazendo querer ir ainda mais longe, porque as mulheres negras merecem muito mais do que o que está acontecendo agora.”

“Emocionalmente, estou com o coração partido. Estou com raiva. Mas, ao mesmo tempo, você sabe, eu não posso ficar com raiva disso porque vi acontecer. Não há surpresa. O elemento surpresa está fora da minha mente com isso. Estou enojada, e odeio que Breonna Taylor não tenha justiça.”

“Agora é a hora em que as pessoas vão dizer: ‘Bem, nós tentamos e é isso que acontece.’ Não, não podemos desistir. Vamos continuar a dizer o nome de Breonna Taylor, o nome de Sandra Bland e incontáveis ​​outras que não viraram, que não estão na T-shirt. Vou usar a minha plataforma em qualquer maneira, dizer os nomes dessas mulheres negras. É hora de usarmos nossas vozes, para deixar nossas vozes serem ouvidas pelas mulheres que não têm voz.”

O sistema não funciona para nós, e eu digo ‘nós’ como pessoas de cor. Não foi escrito para funcionar para nós; nunca funcionou. Agora é a nossa hora de tentar mudá-lo. É tão difícil … A mudança não acontece da noite para o dia, mas cabe a nós ter que plantar as sementes.” – Finaliza Wilson. 

Casos como de Breonna Taylor, nos lembram que existe pele alva e pele alvo

Em maio de 1962, Malcolm X, um grande defensor pelos direitos de homens e mulheres negras nos Estados Unidos durante as décadas de 50 e 60, proclamou o discurso “Quem te ensinou a se odiar?”. O discurso de Malcolm cita a situação das mulheres negras nos EUA, que permanece após 58 anos, e cabe perfeitamente a situação do nosso país, Brasil.

[…] A pessoa mais desrespeitada nos Estados Unidos é a mulher negra. A pessoa mais desprotegida nos Estados Unidos é a mulher negra. A pessoa mais negligenciada nos Estados Unidos é a mulher negra.”

De acordo com o Atlas da Violência de 2019, realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, as mulheres negras no Brasil morrem mais assassinadas e sofrem mais assédio do que as brancas. O risco de uma mulher negra ser assassinada é 64,4% maior.

Em 2016, 60% da mulheres negras foram mortas por agentes públicos, último ano de pesquisa sobre o ato. Em 2018, uma mulher foi assassinada no Brasil a cada duas horas, totalizando 4.519 vítimas. Dessas, 68% são mulheres negras. A taxa de homicídios das mulheres negras é 5,2 para cada 100 mil, muito maior do que o dado de 2,8 por 100.000 para não negras.

O Brasil produz casos como de George Floyd e Breonna Taylor quase diariamente. Entre 2015 e 2019, 25 mil brasileiros foram assassinados pela polícia. Entre 2017 e 2018, 75,4% das pessoas mortas por intervenção policial eram negras. Sendo que, segundo dados do IBGE, esse grupo representa 56,4% da população.

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Em 4 de fevereiro, no interior de São Paulo, um policial militar segurou uma mulher negra grávida, pelo pescoço e depois chutou sua barriga. Na noite de 21 de março, outra mulher foi agredida com um cassetete pelo PM que a atendeu numa denúncia de violência doméstica, onde deveria ter prestado socorro. “Era para me ouvirem, e não me baterem. Se não tivesse a filmagem, eu seria só mais uma” – disse a última vítima. 

No dia 30 de maio, uma mulher negra de 51 anos, dona de um bar na capital de São Paulo, teve a perna quebrada e foi “imobilizada” tendo seu pescoço pisoteado por um policial militar. Isso ocorreu durante uma abordagem policial, e para quem assistiu ao vídeo que circulou pela internet, a intenção de sufocamento pelo PM ficou clara. Isso não te lembra algo?!

As mulheres negras vão ser cada vez mais afetadas, já que são vítimas de violência policial e são as mães dos jovens negros mortos pela polícia. As mulheres negras carregam o peso da exclusão, discriminação e condenação pela cor da pele.

Lembre-se dos nomes Delas e resista!

Precisamos colocar na balança a impunidade nos casos de mulheres negras assassinadas pela polícia que escancara a seletividade do sistema norte-americano, e brasileiro também. A campanha Say Her Name trabalha arduamente para trazer uma maior percepção sobre esse problema. 

A violência policial contra mulheres negras é marginalizada na compreensão do público sobre o policiamento. Para alguns, há uma concepção de que as mulheres negras estão de alguma forma protegidas da ameaça da violência policial. Essa concepção não poderia estar mais errada. 

Breonna Taylor, Atatiana Jefferson, Michelle Cusseaux, India Kager, Aura Rosser, Janisha Fonville, Gabriela Nevarez, Vanessa Guillen, Tanisha Anderson, Rekia Boyd, Shantel Davis, Pamela Turner, Kayla Moore – a lista continua.  Essas são algumas mulheres que foram afetadas pela brutalidade policial, mas o clamor por elas não alçaram justiça.

A história dessas mulheres é uma reminiscência de inúmeras outras e reflete um padrão antigo: por décadas, as mulheres negras são alvos da violência policial. E, por décadas, suas histórias foram postas de lado nas discussões públicas sobre policiamento e justiça.

É cansativo ver pessoas que se parecem com você, pessoas que fazem as mesmas coisas que você, sendo assassinadas a sangue frio, e então as pessoas voltam e dizem que sua vida simplesmente não importa. Ou tentam distraí-lo e dizer que todas as vidas importam ou seja o que for. Estamos apenas exaustos e cansados ​​disso. Antes de ser jogador de basquete, sou uma pessoa e acho que é assim que todos nos sentimos” – Elizabeth Williams, do Atlanta Dream, diz que a luta tornou-se pessoal.

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Muitos estudiosos apontam para a misoginia para explicar a contínua marginalização das mulheres negras nas narrativas dominantes sobre a violência policial.  Segundo Andrea Ritchie, uma das autoras do relatório Say Her Name, explica: 

As experiências femininas de policiamento, criminalização e resistência (tornaram-se) indignas de estudo histórico ou menção, especialmente quando aqueles que escrevem nossas histórias também são homens.”

Por causa da vulnerabilidade à violência sancionada pelo Estado, as mulheres negras têm sido vozes-chave na luta para acabar com violência e injustiça. Com a força e o poder das mulheres negras, a resistência prevalece. 

A trajetória social das jogadoras da WNBA enfatiza a importância na construção de novas lideranças e de novos formatos de liderança de mulheres. Ter consciência das violações diárias a que as mulheres negras são submetidas é condição essencial para se insurgir contra elas. E isso as atletas da WNBA sabem, cerca de 80% das atletas são negras.

Diante desse cenário conturbado que vivemos, a luta das mulheres negras tem sido importante para confrontar o racismo e a violência em sua atuação cotidiana em diversas sociedades para, enfim, tornar-se uma luta de todas. As atletas da ‘W’ com sua força e organização política e social têm conseguido convocar, mobilizar, atrair e reunir novas forças.

É difícil ser uma mulher negra na América e, além disso, sou uma atleta. Eu quero ser aquela voz, aquela voz para aquela garotinha que está me vendo correr para cima e para baixo naquela quadra todos os dias. Não seja silenciada, sempre saiba que você tem uma voz.”  – disse A’ja Wilson no Monday Motivation

Say Her Name não é apenas uma hashtag e/ou campanha para sensibilizar, o racismo não dá trégua. Say Her Name une as mulheres negras e incentiva-as levantar suas vozes e juntar forças para virar o jogo. Para que assim, aprendemos como nos proteger e narrar nossa própria história.

#SayHerName: Atletas da WNBA tem papel fundamental no combate ao racismo e a violência policial contra a mulher negra
Foto: Divulgação/WNBAE

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