De dentro para fora do Jogo, uma visão diferente de quem de alguma forma viveu O Basquete.
VOCÊ ESTÁ EM:
  Bate-papo com Léo Demétrio, por Samuel Gonzaga

Antes goleiro de futebol, hoje um dos principais jogadores da nova geração do basquete brasileiro. Leonardo Demétrio, 23 anos e 2,08m, surgiu para o basquete nacional na tradicional equipe do Minas Tênis Clube e hoje busca seu espaço no Velho Continente. Em sua última temporada no Brasil, alcançou médias de 10.8 pontos e 5.6 rebotes, em 22.9 minutos jogados.

Em 2016, se transferiu para o basquete espanhol, onde jogou a Liga ACB pelo Montakit Fuenlabrada e a LEB Oro (segunda divisão da Espanha) pelo Actel Força Lleida, seu último clube. No Lleida, teve médias de 10.8 pontos e 5.7 rebotes, em 22.7 minutos por jogo.

Ainda sem estar com o futuro definido – embora seja muito provável que continue na Europa – Léo está em sua cidade natal, Curitiba, onde tem treinado em dois turnos, utilizando a estrutura do Círculo Militar do Paraná, clube em que deu seus primeiros arremessos.

No último dia 18 de agosto, o Área Restritiva teve a oportunidade de acompanhar uma clínica de basquete que o ala-pivô ministrou, juntamente com o técnico das categorias de base do Valencia Basket Club, Gonzalo Muinelo, para os atletas do Círculo Militar do Paraná.

Bate-papo com Léo Demétrio, por Samuel Gonzaga
Foto: Samuel Gonzaga

Durante o evento, Léo passou fundamentos para os atletas da base do Círculo e passou sua experiência como atleta profissional.

Ao final da Clínica, Demétrio conversou com o Área Restritiva e respondeu várias perguntas sobre carreira, treinamentos, futuro na Europa e, é claro, seleção brasileira.

Léo, primeiramente, eu gostaria que você falasse dessa oportunidade de ministrar essa clínica de basquete para os atletas do CMP, clube que te revelou?

Sempre tenho muita vontade de ajudar tanto o Círculo Militar como o basquete de Curitiba, do Paraná e do Brasil, a se desenvolver. A clínica foi bem legal por conta disso. Deu para ver muito potencial nos garotos, que vão ser o futuro do basquete brasileiro.

Me sinto honrado de poder estar fazendo parte e ajudar a construir uma possível carreira de mais algum atleta que possa se destacar e estar servindo a seleção paranaense, seleção brasileira e até se tornar profissional. E o mais importante, que é ajudar na formação desses garotos como cidadãos.

Bate-papo com Léo Demétrio, por Samuel Gonzaga
Foto: Samuel Gonzaga

Diferente do seu irmão, Victor Demétrio, você seguiu jogando no Brasil e não tentou entrar no College dos Estados Unidos. Isso foi uma escolha sua ou as coisas foram acontecendo de maneira que levou você a ficar no Brasil e se profissionalizar mais cedo?

Durante minha carreira, eu estava no Minas Tênis Clube e como já havia jogado no profissional, as regras do elegibility center eram bem rígidas enquanto a isso. Como eu já tinha me tornado profissional eu não seria elegível para jogar numa universidade D-1.

Mas eu tive sim essa perspectiva, essa vontade de estar jogando lá e me formar. Acabou que meus passos foram diferentes do meu irmão, mas eu fico feliz porque ele conseguiu estar lá. Está se formando e desenvolvendo o basquetebol dele lá na terra do basquetebol.

E como é essa parceria com o Victor? Conversam muito sobre os jogos de vocês, mesmo longe?

Nós somos muito ligados. E por mais que a gente esteja longe e fique um bom tempo sem nos vermos, a gente sempre acaba trocando uma chamada vídeo.

Ele acompanha meus jogos, eu acompanho os jogos dele e a gente sempre fala o que tem que melhorar, os planos para o futuro. É uma parceria bem legal que eu tenho com meu irmão, uma grande amizade.

Nesse processo de profissionalização, o Minas Tênis Clube foi o clube que te lapidou. Como você avalia o trabalho de formação do Minas? Afinal, de lá saíram você, Felício, Fuzaro, Coelho…

Bate-papo com Léo Demétrio, por Samuel Gonzaga
Foto: Divulgação/LNB

O Minas, como clube, eu acho que tem se não a maior, uma das maiores e melhores estruturas para formação de atletas, não só de basquete, mas de vários esportes. E o que a gente vê bastante são as pessoas que trabalham lá. Sou muito grato a todos os treinadores, dirigentes do Minas, que me proporcionaram sempre a oportunidade de estar jogando campeonatos de alto nível.

Tem bastante treino específico, por que a gente sabe que o jogador mais novo tem que desenvolver bastante a parte técnica, tática e também a parte física. E o Minas proporciona isso para essa molecada que está chegando agora. Eu vejo aqui no Círculo Militar também um grande potencial para ser um dos melhores formadores do Brasil.

Ainda sobre o Minas, aquela temporada de 2014-15, com o Demétrius de técnico, surpreendeu a todos no basquete nacional. O elenco era uma mescla entre atletas jovens e outros mais experientes (Shilton, Alex Oliveira, Robby Collum). Você que viveu aquela temporada, qual foi o principal fator que levou o Minas a fazer um campeonato tão bom mesmo quando ninguém esperava muito daquela equipe?

A gente sempre foi muito consciente que o nosso elenco era muito jovem, mas a gente tinha os veteranos, o Shilton, o Alex e o Robby que sempre davam muito apoio para a gente desenvolver nosso jogo. E compramos a ideia de ser um time defensor. Tanto que a gente foi a melhor defesa do campeonato. O Demétrius foi muito importante na parte tática e técnica também. Foi uma temporada memorável. Sempre vou recordar dessa temporada, foi muito boa.

Na temporada seguinte, seus números individuais aumentaram e você fez uma ótima temporada. Então chegou a proposta do Fuenlabrada. Como foi esse processo de transferência, era o planejado ou te pegou de surpresa?

Eu sempre tive esse sonho de jogar na Europa. Meu objetivo é sempre jogar no nível mais alto que eu conseguir. Então, surgiu a possibilidade de jogar no Fuenlabrada e eu não pensei duas vezes quando acabou a temporada com o Mina. Eu sei que foi uma boa temporada. Durante todo o ano eu estava confiante.

Bate-papo com Léo Demétrio, por Samuel Gonzaga
Foto: Baloncesto Fuenlabrada

No Fuenlabrada, disputei os playoffs contra o Barcelona e a gente acabou perdendo, devido a qualidade da equipe do Barcelona, claro. Mas foi uma experiência muito boa.

Você fez 3 jogos pelo Fuenlabrada e logo de cara enfrentou o Real Madrid. Apesar do período curto, o que deu para absorver ao treinar e jogar numa equipe de Liga ACB?

No começo, você não acredita. Por que é uma coisa que parece tão longe. Mas quando vê, você está lá no meio.

Para mim foi um período muito duro de adaptação, por mais que eu soubesse falar um pouco o espanhol. É diferente você chegar lá e treinar todo dia. São vários jogadores estrangeiros, como croatas e sérvios, não só os espanhóis. A cultura é muito diferente. Foi uma temporada de adaptação que somou muito para minha carreira. Abriu minha cabeça e fez eu evoluir como pessoa e como jogador.

Em 2016-17, você jogou a LEB Oro, pelo Actel Força Lleida, foram bons números e bons jogos. Como você avalia essa temporada? Seu jogo de fora ficou mais sólido… (36,52% nos tiros de três)

Foi uma temporada onde eu tinha que ter mais protagonismo no time, junto com o outro atleta americano (Garrett Nevels). Nós éramos os caras que tinham que fazer acontecer e foi muito bom. O trabalho é coletivo. Mas a gente sabe, cada um tem um papel na equipe. E sendo mais protagonista assim, tem um nível de dificuldade maior. Mas que eu aceitei e gostei bastante. A torcida lá é fenomenal, você joga com média de 2, 3, 4 mil pessoas, é muito legal. Então, tem cobrança. A gente começou as 10 primeiras rodadas em primeiro e foi uma temporada muito boa e que eu vejo como crescimento. Com muitos treinos específicos. E essa parte da solidez no meu jogo, eu evoluí bastante, principalmente no arremesso de três pontos. Outros fundamentos do jogo também, a ter mais leitura e etc. A gente defendia quadra inteira, o jogo inteiro, então é uma mudança que tem que se adaptar, mas que o time comprou a ideia e foi uma boa temporada.

Bate-papo com Léo Demétrio, por Samuel Gonzaga
Foto: Area 18

Na última temporada da LEB Oro tivemos você e o Felipe dos Anjos (Union Financeira Oviedo) como atletas brasileiros. Você acredita que uma liga menor na Europa pode ser um caminho cada vez mais recorrente para outros jogadores brasileiros que têm potencial?

Eu vejo a LEB Oro como uma liga muito equilibrada. A maioria dos times tem um bom nível técnico e tático e conseguem trazer bons jogadores. Mas é uma segunda divisão, então muitos times colocam os caras mais novos, que são emprestados, para poderem estar desenvolvendo. Ao mesmo tempo que é uma liga onde tem caras mais experientes. Então você acaba aprendendo muito.

Eu vejo que é um caminho possível pelo fato de ser uma liga forte, muito respeitada na Europa. Pois se o atleta consegue jogar bem na LEB Oro, acaba tendo mais oportunidade e muita visibilidade. Até mesmo porque na Europa, os países são pertos e pequenos, em uma hora você pode estar em outro país. Então pode ter sempre alguém te observando e olhando seu jogo. Fora que todos os jogos são transmitidos online e de graça pelo site da federação espanhola. Além do Sinergy, que está lá com todas as estatísticas e o pessoal vai sempre poder te acompanhar.

Você é um jogador versátil, podendo jogar em até 3 posições. Hoje como você se vê taticamente dentro de quadra?

Nessa offseason, eu estou treinando bastante meu drible, que é uma coisa que eu tenho que melhorar também. Meu arremesso eu continuo trabalhando sempre. Eu vejo que eu sou um 4, que pode ser um 5 e pode ser um 3. Eu estou me desenvolvendo fisicamente, para na próxima temporada conseguir ser um jogador com um jogo interior mais forte, para poder fazer uma posição 5 com maior consistência, tanto defensivamente quando ofensivamente. E ao mesmo tempo ser um lateral, por que desenvolvendo meu arremesso é mais uma possibilidade. E quanto mais opções você poder dar para o treinador, melhor.

Quem te acompanha no Instagram (@leodemetrio71) vê que a pré-temporada está puxada, com muitos treinamentos. Inclusive, você passou um período na Impact Basketball, junto com o Coelho e o Danilo Fuzaro. Conte-nos sobre como está sendo essa pré-temporada e como foi esse período na Impact…

A gente sempre tem esse objetivo de estar viajando para o exterior, para poder estar desenvolvendo nosso jogo durante as férias. Férias entre as aspas, né. Por que a gente sempre tem que estar melhorando.

O bom de ir para a Impact, é que além dos treinos físicos serem muito puxados e você aprender muita coisa que geralmente não é feito na temporada, principalmente na parte física e técnica, onde tudo é levado ao limite, é que lá você vê caras como Amir Johnson, que é um jogador que sempre teve contratos de mais de 10 milhões de dólares, treinando com você, buscando melhorar. Um cara que, na teoria, não precisaria disso, mas que sabe que a concorrência e a competição são grandes. Isso eu acho que acaba motivando. Jogar 5 contra 5 contra esses caras ajuda muito nosso jogo e você vê que é uma realidade possível. Às vezes você olha e acha que está muito longe, mas não, está perto. Só que para chegar lá tem que treinar bastante e por isso que a gente treina bastante. Pois se você tem ambição, vai querer chegar lá.

Além do Amir Johnson, com quais jogadores da NBA vocês dividiram quadra na Impact?

Tinha o Anthony Bennet, que agora não está mais na NBA e sim na Euroliga, mas que foi a primeira escolha do draft e o CJ Watson. Três dias depois que a gente foi embora estava o DeMarcus Cousins, Anthony Davis…. Então é uma rotatividade muito grande.

O período que eu estava lá deu para ver também o primeiro dia de jogos da Summer League. Vi o Georginho em Houston. A estreia do Lonzo Ball, que não foi tão bem. E tinha muita gente torcendo! Foi bem legal, uma experiência incrível.

A próxima temporada já está próxima e você ainda não foi anunciado em nenhum time. Já pode nos contar onde irá atuar esse ano? Volta para o Brasil ou continua na Europa?

Então, quando acabou a temporada no Lleida, eu fui para a Itália e fiz todo trâmite legal para a retirada do passaporte italiano, para ter a possibilidade de jogar como jogador comunitário. Isso vai possibilitar ocupar as vagas de jogadores comunitários das equipes europeias.

Nos próximos dias eu devo saber para onde eu vou, mas enquanto isso sigo todos os dias trabalhando bastante.

Houve um rumor que você tinha conversas com o Flamengo. Isso aconteceu?

Aqui no Brasil alguns clubes vieram falar com o meu agente. Mas a questão é que minha prioridade sempre foi esperar essa situação do passaporte para continuar na Europa e escalar os níveis lá. Consegui fazer uma boa primeira temporada, mas claro, quero estar sempre desenvolvendo meu jogo para que, quando estiver no auge, estar no melhor lugar possível. O Flamengo conversou com meu agente, uma possibilidade remota, mas não foi nenhuma proposta concreta assim, de valores. Pelo menos não chegou até mim.

Bate-papo com Léo Demétrio, por Samuel Gonzaga
Foto: Divulgação/LNB

A seleção brasileira passa por uma renovação e a AmeriCup é o primeiro passo para o próximo ciclo olímpico. Você foi presença constante nas seleções de base, vice-campeão da copa américa sub-18, jogou mundial sub-19 e esteve na primeira lista do Magnano para o Sul-americano de 2016. Muitos davam seu nome como certo na lista do César Guidetti. Te surpreendeu você não ser lembrado dessa vez?

Me surpreendeu sim. Pois é sempre uma honra servir à seleção e é um dos meus objetivos pessoais.

Vim de uma temporada boa na Europa e ano passado eu fui chamado para a seleção que foi para o Sul-americano. Estava treinando bem, só que acabei tendo uma hiperextensão do cotovelo e fiquei de fora.

Ficar de fora da convocação para a AmeriCup foi uma surpresa para mim, mas serviu como motivação, comecei a treinar mais e continuarei melhorando meu jogo. Espero no futuro servir à seleção brasileira novamente.

Como é o Léo Demetrio fora das quadras? Costuma se desligar do basquete ou acompanha todos campeonatos possíveis?

Ah, basquete é 24 horas por dia mesmo. Eu sempre tento acompanhar o máximo possível dos campeonatos e as novas gerações. Estudo muito caras da minha posição, para melhorar meu jogo. Mas, claro, não é só basquete. Eu fiz 3 anos de administração lá em Belo Horizonte enquanto estava no Minas e é um curso que pretendo me formar.

Acompanhou a última temporada do NBB? Essa temporada foi maluca…

Acompanhei. Sempre converso bastante com o Danilo (Minas Tênis Clube) e o Coelho (Franca Basquete). Acompanhei o time de Bauru, com o Shilton e o Dema.

Foi uma boa temporada. Eu vejo que o nível do basquete brasileiro está melhorando bastante. O pessoal mais novo do Paulistano dando trabalho para um monte de equipe, inclusive para Bauru. Foi um bom campeonato e a gente vê que o trabalho dá resultado.

Quais são seus palpites para a NBA e o NBB este ano?

Estou gostando muito da formação do Philadelphia. É um time com muito talento e acho que esse ano eles conseguem chegar nos playoffs.

No NBB, eu vejo Franca com grande potencial para conquistar esse título.

Dos jogadores que você já jogou contra, qual o mais difícil de enfrentar no um contra um? E dos companheiros de equipe, qual deu mais trabalho nos treinos?

Jogando contra foi o Giovanonni. É impressionante a qualidade dele. Você defende muito bem e mesmo assim ele tem qualidade para pontuar. Sabe se posicionar muito bem e consegue criar arremessos livres.

No treino, um cara que é muito bom é o Shilton. Ele faz um trabalho muito bom defensivamente e ofensivamente é um pivô que tem uma visão de jogo muito boa, que está sempre pensando na frente e sabe contribuir com a equipe. É um cara que se adapta e contribui com a equipe.

E aquela clássica pergunta: Quem é seu maior ídolo e inspiração, seja no basquete ou na vida?

Eu gosto muito do Kevin Durant. É um cara muito talentoso que treina bastante e está sempre querendo melhorar. E o Lebron James também, que está sempre entre os melhores do mundo, recebe muita crítica, e continua melhorando. É um cara que me inspira.

Por fim, fique livre para deixar um recado para os leitores do Área Restritiva e para que acompanha seu trabalho…

Bom, para o pessoal que segue meu trabalho, pode ter certeza que vou continuar trabalhando mais duro ainda para alcançar meus objetivos e seguir melhorando para representar o Brasil no futuro.

 

 

 

 

SOBRE O AUTOR

Diego Andrade, mais conhecido como Diego Silver. Professor de Educação Física. Pai, viciado em coisas de Nerd e é claro entusiasta do Basquetebol. Ex-Aluno do Bi-Campeão Mundial Rosa Branca, quando o mesmo era servidor do SESC Consolação.

CONHECER TODO TIME
RESENHE COM A GENTE AÍ!

Deixe uma resposta

 
CONTINUAR LENDO... posts recentes
 
VOLTAR AO TOPO
%d blogueiros gostam disto: